domingo, 28 de outubro de 2012

BULIR



Costumo ouvir alguns vocábulos e pensar que não se encontram no dicionário, geralmente quando é dito por pessoa mais humilde, ou às vezes do interior, ou dos estados do Norte e Nordeste. Acredito serem palavras de um uso muito regional, quase uma gíria, enfim, nada que se deva encontrar num dicionário, inda mais ter uma etimologia.
E eu sempre quebro a cara, vou no dicionário e lá está o vocábulo, perfeito , me dá aquela piscadela como quem diz: _ te peguei.
Pois foi o que aconteceu esse dia, um amigo deu-me uma palavra e pediu-me um texto em torno dela.
A palavra – bulir.
Nem tão pouco usada assim, mas duvidei dela.
Abri o Houaiss e ela ali, firme e forte, cheia de sentidos; olhei todos e o que mais me sorriu foi o último, peguei a pista. Mais adiante a etimologia: direto do latim, quase igual.
Ai que eu ainda morro de vergonha.
“...
transitivo indireto
10   Regionalismo: Nordeste do Brasil.
tirar a virgindade de; deflorar, seduzir
Ex.: b. com uma moça

lat. bullìo,is,ívi ou ìi,ítum,íre 'ferver, agitar(-se), irritar(-se)'; ver bol-; f.hist. sXIII bolir, sXIV bulir, sXV abollyr

O texto então veio, muitas reminiscências, uma delas a de uma oliveira que nunca vi que não fosse em foto.
A foto, a primeira que lembro ter visto é a que apresento abaixo, emprestada da página de Tyloan, no Flickr, que pode ser vista aqui em

conta-nos o autor da foto, que estas oliveiras são do Jardim de Getsêmani, alguma tão antiga, com mais de dois mil anos e por isso chamada de árvore testemunha


BULIR
Havia uma cama, duas toalhas estendidas, uma lâmpada fraca, quatro paredes, uma porta, e o silêncio, o barulho ocasional da televisão e vozes, algum arfar também.
E as palavras que brotavam como água fresca de fonte em terreno escaldante, havia também uma árvore, oliveira muito antiga, seus troncos e galhos testemunharam tantos ventos e tormentas, e contava-nos sobre isso com seus desenhos caprichosos retorcidos.
Ah, sim, e o poema, e a música no fundo, ou a música era da cadência do poema; não sei mais.
Sim, era sedução.
Como atirar rosas estrelas cometas asteróides.
E a verdade de sentir os espasmos e estremecimentos e a virtude quente e macia calma.
Ora, por que não bulir aí?

SP 25 10 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

FUNDO








FUNDO


Atravessamos de São Sebastião para Ilha Bela, ao desembarcar da balsa paramos no ponto dos ônibus para esperar o que nos levaria até à praia do curral. Enquanto esperávamos percebi que pouco adiante, sentados na mureta à beira da água do mar, que chegava até ali naquela hora, estavam dois meninos. Um pequeno, de aproximadamente oito anos e outro maior que não devia ultrapassar os doze anos de idade , vestiam apenas calção, estavam desacompanhados de adultos e provavelmente moravam por perto.
Notei que o menor esticava as pernas sobre as águas e parecia querer mergulhar, mas talvez ponderassem sobre os riscos.

Seria muito fundo?
Que abismos insondáveis abaixo da superfície da água?
Haveriam buracos que os tragariam, sem chance de salvação?
Que trevas residiriam ali?
Correntezas traiçoeiras a arrastar para precipícios marinhos sem fim?

O desejo de se atirar na água empatava com o temor dos perigos que não podiam ver, mas adivinhavam naquelas águas.
O maior encontrou, mais adiante, uma vara de bambu e correu para apanhá-la, seguido do menor que o acompanhava, voltou para o local onde estavam antes e tratou de mergulhar uma das pontas da vara na água para medir a sua profundidade, e logo a vara parou, cutucou ainda, tentando talvez escapar de um obstáculo intermediário, mas a vara parava na mesma altura . Ao retirá-la, a marca molhada demonstrava uma altura de água que não alcançava sequer a cintura do menino pequeno.

Um breve instante de silêncio banhado de surpresa e decepção.
O menino pequeno então falou:
_ Não é fundo.
O maior acrescentou:
_ Nosso medo é que é fundo.
                                               _______ // ________


Não recordo quando escrevi este texto, porém há já mais de cinco anos. Tudo, ou quase, foi visto e presenciado por mim, procurei dar ao texto o máximo de concisão, cheguei a pensar em retirar as perguntas que coloco como as ponderações dos meninos, pois obviamente foram frutos de minha imaginação ; julguei que deveria excluí-las por tratar-se de uma interferência do narrador. Mas não foi possível, afinal o narrador faz parte do evento; e num paroxismo de dúvidas chega a pensar se ele mesmo não terá inventado tudo. A dúvida afinal é aplacada apenas pela certeza de que este narrador não teria capacidade para tanto.
O desenho a ilustrar é de minha autoria, mas não é de Ilha Bela e sim da Bahia  da Babitonga , em São Francisco do Sul em Santa Catarina; era um dia de sol brilhante e ar absolutamente transparente (o desenho), provavelmente em 1996.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Um amigo escreveu-me um email e disse que tinha curiosidade de saber o que tenho pensado do mundo;
foi isso abaixo, o que deu:



Não sei se deu pra notar que a sua proposição de querer saber o que tenho pensado do mundo, intimidou-me.
Pois é:
de tão simples ficou complicado.
Tire suas conclusões:
não creio em deus
nem em vida após a morte
mas acredito na morte em vida ( até acho que a maioria vive assim=morto)
não tenho filhos , nem terei;
nem cachorro eu crio,
só minhocas, essas comem o resto de comida de minha cozinha e fazem um humus muito bom, são silenciosas e limpas, e os sobrinhos crianças quando vem em casa ficam fascinados revirando a terra achando mancheias de minhocas. Elas ficam ficam fascinadas e os pais enojados, em suma, é perfeito.
Que mais posso pensar do mundo?
Talvez que o mundo seja só o umbigo de cada um, para cada um.
E no entanto sou incorrigivelmente otimista.
E eu tenho muita saudade de você; ainda que no tempo que corre, e porque corre, eu pouco me lembre disto.
Espero ter deixado satisfeita sua curiosidade e que sinta-me um pouco próximo,
estou todo aqui.
Um forte abraço
Edilson

domingo, 1 de janeiro de 2012

FELIZ ANO NOVO

Unindo-me aos esforços de criar mensagens propícias ao novo ano; aqui está minha contribuição, com a ajuda do Calvin.
Uma mensagem tão otimista que chega perto da de uma Poliana.