quinta-feira, 26 de setembro de 2013

OS MEUS CÉZANNES


Natureza morta com cortina e jarra.
De Paul Cézanne
c. 1899
Óleo sobre tela
547 x 740 mm
Hermitage, São Petersburgo (Rússia)

Neste quadro o que mais atraiu minha atenção foi a parte inacabada, no canto inferior direito, e além, a composição. Esta pintura sempre me instigou, despertando o meu desejo para criar a partir dela.
Pois foi o que fiz, criei dois moldes vazados em tamanhos distintos, observando o mais rigorosamente possível as proporções do quadro original e lancei-me ao trabalho:
Porém, foi apenas após publicar estas postagens que percebi que a composição toda pende para a esquerda,e todos os elementos do quadro parecem que vão cair. Isto dá ao quadro uma tensão considerável que o enche de energia e dinamismo inquietantes.


NMCJ 1
Aquarela e bico de pena sobre papel - 241 x 330 mm

Este foi o primeiro experimento. Usei o molde vazado para marcar as principais posições dos objetos e tentei seguir ao modelo, ao mesmo tempo que procurava ir além da mera reprodução. Queria mostrar o que me encantava na pintura sem imitar, mostrar o que via, além daquilo que via. Ou seja : não sei o que queria .
O que obtive foi uma imagem muito servil ao original, com manchas de cor empastadas e pouco harmoniosas, sombras e traços pesados e duros.


NMCJ 2
Aquarela e bico de pena sobre papel - 241 x 330 mm

Tentei mais uma vez. Consegui diminuir a dureza dos traços e manchas, e a imagem continuou muito presa ao original, sem as qualidades dele.
Comecei a pensar que o que queria era diluir as formas, captar a vibração da pintura sem precisar reproduzí-la.


NMCJ 3
Aquarela e bico de pena sobre papel - 241 x 330 mm

Desta vez os traços e as manchas ficaram mais soltos e expontâneos, as formas dos objetos se tornam mais imprecisas e fugidias e o branco predomina e a tela se enche de luz, Mas ainda me parece preso demais ao modelo.


NMCJ 4
Aquarela e bico de pena sobre papel - 241 x 330 mm

Quarta tentativa; as formas cada vez mais se decompõem. A jarra por exemplo aparece apenas pelo seu contorno. A imagem se torna mais desfigurada, porém ainda completamente presa ao modelo. Entretanto há muito maior liberdade na expressão de ritmos independentes da figuração, apenas pelas manchas e traços de cor, elementos concretos da pintura.


NMCJ 5 - 29/10/2008
Aquarela e bico de pena sobre papel - 241 x 330 mm

Na Quinta tentativa uma recaída na figuração. As manchas estão leves e mais soltas, os traços pouco incisivos. E a figura original domina. Parece impossível fugir de seu mando. Mas sei que não é isso o que posso mostrar. Conforme vim até aqui, pintando de olho no modelo original, imaginei que deveria ocultá-lo de minha visão e assim alcançar maior liberdade.


NMCJ 6 - 29/10/2008
Aquarela e bico de pena sobre papel - 241 x 330 mm

Foi o que fiz, usei o molde vazado para marcar alguns pontos como uma referência e escondi a imagem original. Nada feito.
Um peso insuportável domina toda a imagem e a repetição mais servil ao modelo. Porém um aspecto defeituoso me parece interessante: todos os componentes da imagem parecem colados na tela com força incrível , como se cimentados. Lembra-me da intenção sempre constante de Cézanne de dar às suas imagens solidez, e da forte estruturação que tem suas pinturas. Entretanto não era isto o que eu queria mostrar. O contrário: a energia, a fluidez, a vibração luminosa e leve de suas pinturas.


NMCJ T - 01/11/2008
Aquarela e bico de pena sobre papel - 382 x 490 mm

Neste, uma tela maior, o molde vazado foi novamente usado para marcar alguns pontos como estímulo e referência. A imagem resultante compõem-se quase que só de manchas e a referência ao modelo vai quase desaparecer. Resta a estrutura geral, a mesa , a cortina, a diagonal da cortina dividindo o quadro quase ao meio.
As manchas de cor guardam o seu caráter transparente ao máximo, dando à superfície do quadro a pulsação entre inumeráveis planos. As manchas avermelhadas que se referem aos frutos da imagem original, não se apoiam em nada, como que flutuam num giro vertiginoso no meio do quadro. Cortina e mesa passam a servir de suporte para o levitar dos objetos.
Há uma forte divisão aparente entre as esferas vermelhas e as manchas verdes que estão ao redor, como partes que não se unem. No entanto, ambiguamente, ao fixar a atenção nas partes vermelhas e verdes ao mesmo tempo, todas as partes se unem e se sustentam.

domingo, 28 de outubro de 2012

BULIR



Costumo ouvir alguns vocábulos e pensar que não se encontram no dicionário, geralmente quando é dito por pessoa mais humilde, ou às vezes do interior, ou dos estados do Norte e Nordeste. Acredito serem palavras de um uso muito regional, quase uma gíria, enfim, nada que se deva encontrar num dicionário, inda mais ter uma etimologia.
E eu sempre quebro a cara, vou no dicionário e lá está o vocábulo, perfeito , me dá aquela piscadela como quem diz: _ te peguei.
Pois foi o que aconteceu esse dia, um amigo deu-me uma palavra e pediu-me um texto em torno dela.
A palavra – bulir.
Nem tão pouco usada assim, mas duvidei dela.
Abri o Houaiss e ela ali, firme e forte, cheia de sentidos; olhei todos e o que mais me sorriu foi o último, peguei a pista. Mais adiante a etimologia: direto do latim, quase igual.
Ai que eu ainda morro de vergonha.
“...
transitivo indireto
10   Regionalismo: Nordeste do Brasil.
tirar a virgindade de; deflorar, seduzir
Ex.: b. com uma moça

lat. bullìo,is,ívi ou ìi,ítum,íre 'ferver, agitar(-se), irritar(-se)'; ver bol-; f.hist. sXIII bolir, sXIV bulir, sXV abollyr

O texto então veio, muitas reminiscências, uma delas a de uma oliveira que nunca vi que não fosse em foto.
A foto, a primeira que lembro ter visto é a que apresento abaixo, emprestada da página de Tyloan, no Flickr, que pode ser vista aqui em

conta-nos o autor da foto, que estas oliveiras são do Jardim de Getsêmani, alguma tão antiga, com mais de dois mil anos e por isso chamada de árvore testemunha


BULIR
Havia uma cama, duas toalhas estendidas, uma lâmpada fraca, quatro paredes, uma porta, e o silêncio, o barulho ocasional da televisão e vozes, algum arfar também.
E as palavras que brotavam como água fresca de fonte em terreno escaldante, havia também uma árvore, oliveira muito antiga, seus troncos e galhos testemunharam tantos ventos e tormentas, e contava-nos sobre isso com seus desenhos caprichosos retorcidos.
Ah, sim, e o poema, e a música no fundo, ou a música era da cadência do poema; não sei mais.
Sim, era sedução.
Como atirar rosas estrelas cometas asteróides.
E a verdade de sentir os espasmos e estremecimentos e a virtude quente e macia calma.
Ora, por que não bulir aí?

SP 25 10 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

FUNDO








FUNDO


Atravessamos de São Sebastião para Ilha Bela, ao desembarcar da balsa paramos no ponto dos ônibus para esperar o que nos levaria até à praia do curral. Enquanto esperávamos percebi que pouco adiante, sentados na mureta à beira da água do mar, que chegava até ali naquela hora, estavam dois meninos. Um pequeno, de aproximadamente oito anos e outro maior que não devia ultrapassar os doze anos de idade , vestiam apenas calção, estavam desacompanhados de adultos e provavelmente moravam por perto.
Notei que o menor esticava as pernas sobre as águas e parecia querer mergulhar, mas talvez ponderassem sobre os riscos.

Seria muito fundo?
Que abismos insondáveis abaixo da superfície da água?
Haveriam buracos que os tragariam, sem chance de salvação?
Que trevas residiriam ali?
Correntezas traiçoeiras a arrastar para precipícios marinhos sem fim?

O desejo de se atirar na água empatava com o temor dos perigos que não podiam ver, mas adivinhavam naquelas águas.
O maior encontrou, mais adiante, uma vara de bambu e correu para apanhá-la, seguido do menor que o acompanhava, voltou para o local onde estavam antes e tratou de mergulhar uma das pontas da vara na água para medir a sua profundidade, e logo a vara parou, cutucou ainda, tentando talvez escapar de um obstáculo intermediário, mas a vara parava na mesma altura . Ao retirá-la, a marca molhada demonstrava uma altura de água que não alcançava sequer a cintura do menino pequeno.

Um breve instante de silêncio banhado de surpresa e decepção.
O menino pequeno então falou:
_ Não é fundo.
O maior acrescentou:
_ Nosso medo é que é fundo.
                                               _______ // ________


Não recordo quando escrevi este texto, porém há já mais de cinco anos. Tudo, ou quase, foi visto e presenciado por mim, procurei dar ao texto o máximo de concisão, cheguei a pensar em retirar as perguntas que coloco como as ponderações dos meninos, pois obviamente foram frutos de minha imaginação ; julguei que deveria excluí-las por tratar-se de uma interferência do narrador. Mas não foi possível, afinal o narrador faz parte do evento; e num paroxismo de dúvidas chega a pensar se ele mesmo não terá inventado tudo. A dúvida afinal é aplacada apenas pela certeza de que este narrador não teria capacidade para tanto.
O desenho a ilustrar é de minha autoria, mas não é de Ilha Bela e sim da Bahia  da Babitonga , em São Francisco do Sul em Santa Catarina; era um dia de sol brilhante e ar absolutamente transparente (o desenho), provavelmente em 1996.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Um amigo escreveu-me um email e disse que tinha curiosidade de saber o que tenho pensado do mundo;
foi isso abaixo, o que deu:



Não sei se deu pra notar que a sua proposição de querer saber o que tenho pensado do mundo, intimidou-me.
Pois é:
de tão simples ficou complicado.
Tire suas conclusões:
não creio em deus
nem em vida após a morte
mas acredito na morte em vida ( até acho que a maioria vive assim=morto)
não tenho filhos , nem terei;
nem cachorro eu crio,
só minhocas, essas comem o resto de comida de minha cozinha e fazem um humus muito bom, são silenciosas e limpas, e os sobrinhos crianças quando vem em casa ficam fascinados revirando a terra achando mancheias de minhocas. Elas ficam ficam fascinadas e os pais enojados, em suma, é perfeito.
Que mais posso pensar do mundo?
Talvez que o mundo seja só o umbigo de cada um, para cada um.
E no entanto sou incorrigivelmente otimista.
E eu tenho muita saudade de você; ainda que no tempo que corre, e porque corre, eu pouco me lembre disto.
Espero ter deixado satisfeita sua curiosidade e que sinta-me um pouco próximo,
estou todo aqui.
Um forte abraço
Edilson

domingo, 1 de janeiro de 2012

FELIZ ANO NOVO

Unindo-me aos esforços de criar mensagens propícias ao novo ano; aqui está minha contribuição, com a ajuda do Calvin.
Uma mensagem tão otimista que chega perto da de uma Poliana.

sábado, 7 de maio de 2011

novamente a vida



Too scanty ‘twas to die for you,
The merest Greek could do that.
The living, Sweet, is costlier -
I offer even that -

The Dying, is a trifle, past,
But living, this includes
The dying multifold - without
The Respite to be dead.


Pouco é morrer por ti,
O mais mero Grego o faria.
Viver, Querido, mais custa -
E isso também ofereço -

Morrer é nada, passado,
Mas a vida inclui viver
A morte multiplicada - sem
O alívio de morrer.

                                   Emily Dickinson
                                   Trad. Isa Mara Lando


Preparação para a Morte

A vida é um milagre.
Cada flor,
Com sua forma, sua cor, seu aroma,
Cada flor é um milagre.
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu vôo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
O espaço, infinito,
O espaço é um milagre.
O tempo, infinito,
O tempo é um milagre.
A memória é um milagre.
A consciência é um milagre.
Tudo é milagre.
Tudo, menos a morte.
Bendita a morte,
que é o fim de todos os milagres!

                   Manuel Bandeira


Há algum tempo postei um texto que escrevi, e que continua aqui , pode conferir. Pois os dois poemas citados acima, da Emily Dickinson e o do Manuel Bandeira, de outras formas acabam dizendo a mesma coisa.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Três Poemas de Amor e um Fado

O burro de coração partido

(e pra quem demora mais a entender: tem ironia)



BILHETE EM PAPEL ROSA

Ao meu amado secreto, Castro Alves.

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
"o cinamomo floresce
em frente do teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo."
Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão negro,
eu vivo tão perturbada,
pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.

                        Adélia Prado
                        Bagagem



TERESA

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna

Quanto vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando
                               [que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

                        Manuel Bandeira
                        Estrela da Vida Inteira



PRANTO PARA COMOVER JONATHAN

Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.

                        Adélia Prado
                        O Pelicano



O FADO






A letra do fado

MORADA ABERTA
(Carlos Tê/ Rui Veloso)

Diz-me o rio que conheço
Como não conheço a mim
Quanta mágoa vai correr
Até o desamor ter fim

Tu nem me ouves lanceiro
Por entre vales e montes
Matando a sede ao salgueiro
Lavando a alma das fontes

Vi o meu amor partir
Num comboio de vaidades
Foi à procura de mundo
No carrossel das cidades
Onde o viver é folgado
E dizem, não há solidão
Mas eu no meu descampado
Não tenho essa ilusão

Se eu fosse nuvem branca
E não um farrapo de gente
Vertia-me aguaceiro
Dentro da tua corrente
E assim corria sem dor
Sem de mim querer saber
E como tu nesse rumor
Amava sem me prender

Vai rio, que se faz tarde
Para chegares a parte incerta
Espalha por esses montes
Que tenho morada aberta.


este desenho já foi postado anteriormente aqui